terça-feira, 6 de janeiro de 2009

E Zero Nove chegou


Foto: Tobias Ferraz

Jovem "noiado" dorme profundamente. A luz do dia denuncia as baladas do crack.

É Ano Novo. Este Zero Nove trouxe em seus últimos dias de gestação muitos desejos de paz, amor, saúde, vitórias; enfim, uma série de estímulos fraternais, e junto com tudo isso, no Oriente Médio, mais uma guerra encaminhava-se. A gente pensa que isso é lá um problema de palestinos e judeus e nos esquecemos de nossas guerras internas. Zero Nove chegou e o combate ao crime organizado no nosso país ainda está desorganizado. As políticas gestadas não são mais públicas. Vivemos um festival de "políticas privadas", principalmente na saúde e na educação. O tráfico de drogas é uma realidade, com uma série de "bocas de fumo" comemorando bodas de prata, produzindo novos usuários e o descaso com o ser humano parece aumentar. Talvez estejamos vivendo o ponto alto da Era do Cinismo e com este mesmo cinismo se deseja "paz, amor, sáude..." Privatizaram os sentimentos, compram-se felicitações. Fazer a tal da "cara de paisagem" para as questões sociais é ter um certo charme que "engrandece". Pode a mesquinhez e a perversidade engrandecer alguém?///

quinta-feira, 20 de novembro de 2008

Dia Nacional da Consciência Negra

Congada: herança viva da resistência. Foto:Tobias Ferraz

Hoje é um dia para refletirmos sobre o grande herói Zumbi, símbolo de resistência não só de uma etnia, mas de todos os renegados.

Neste dia vale lembrar Gilberto Freyre em trecho de Casa grande & Senzala:

"Todo brasileiro, mesmo o alvo, de cabelo louro, traz na alma, quando não na alma e no corpo – há muita gente de jenipapo ou mancha mongólica pelo Brasil – a sombra, ou pelo menos a pinta do indígena ou do negro. No litoral, do Maranhão ao Rio Grande do Sul, e em Minas Gerais, principalmente do negro. A influência direta ou vaga e remota, do africano."(FREYRE, 1964, 367)

sábado, 15 de novembro de 2008

Da diáspora à resistência

Terno de congo Minas Brasil, mais de 120 anos de tradição.

Deixa o munho muê,
deixa o munho muê; ribeirão.
Trovão é quem manda chuva,
que segura esse capoeirão.
Quadra de verso clássica entre os cânticos congadeiros, de domínio popular e autor desconhecido, onde a palavra moinho apresenta a corruptela para a forma munho.


Treze de maio de 2008, 6h30. Vila Celeste, bem próximo ao centro de Uberaba. Um grupo de costureiras, artistas plásticos e apoiadores, formam um batalhão que dá forma e vida para a grande festa. É um vai e vem constante no corredor improvisado como oficina de costura e produção de adereços na casa de Tia Luzia, líder espiritual da Umbanda, matriarca que dita as ordens e impõe-se pelo respeito e autoridade que tem entre os membros do clã Mapuaba, tradicional família descendente de escravos africanos e residentes no Triângulo Mineiro há mais de 120 anos.
O ruído das máquinas de costura se mistura com o bater de martelos, diálogos e risos. Do tacho borbulhante no fogão vem o cheiro do ensopado que toma conta do galpão, invade todo o ambiente com aroma de ervas e desperta até mesmo o mais sonolento paladar nessas primeiras horas da manhã.
É uma grande oficina familiar. Mãos hábeis e firmes produzem o fardamento para os oficiais e soldados que, dali à algumas horas, vão mostrar toda a exuberância dos Ternos de Congada Minas Brasil I e II durante o cortejo do Treze de Maio. É dia de festa!

sexta-feira, 14 de novembro de 2008

De chapéu recostado no peito




Conheci o Flavinho no começo dos anos 2000, na região de Paineiras, no meio-oeste de Minas Gerais. Na época um jovem tratador que demonstrava um futuro promissor na lida com o gado zebu, mais precisamente pela sensibilidade no trato com a raça Nelore. Apresentava, além do carinho, um grande respeito pelos animais – “Dá uma dó quando o patrão vende e eles vão embora”.
Anos mais tarde, fui reencontrá-lo em Uberaba, já cuidando das cocheiras da Chácara Naviraí. Nada mais acertado; um peão dedicado como ele, só poderia ter por destino certo, a Capital Brasileira do Zebu.
Um traço marcante no Flavinho sempre foi o sorriso fácil, a conversa amigável, a boa educação em todos os momentos, principalmente quando passávamos um certo tempo sem nos encontrar; lá vinha o Flavinho fazendo festa, contando as novidades, comentando sobre uma bezerra extraordinária ou sobre a descoberta de um bezerro “que vai dar o que falar” como ele gostava de dizer. Sempre curioso, perguntador e de olhar atento, dizia que tinha muito ainda o que aprender sobre o Zebu e “suas manhas” disse várias vezes que “aprendia mesmo era no esteio”, na lida do dia a dia, na convivência com os criadores e zebuzeiros experientes.
Nossa amizade sempre foi pautada pela espontaneidade. Certa vez comparou-me à Galvão Bueno (dizia gostar das minhas locuções), no que devolvi de bate-e-pronto, que ele é que era a “cara” do Galvão. A semelhança é indiscutível; o Flavinho ria com a brincadeira e seguia falando dos animais de destaque. Isso foi há pouco, no pavilhão da Naviraí montado na ExpoGenética, no Parque de exposições de Uberaba.
Tínhamos em comum a admiração pelo trabalho de Cláudio Sabino Carvalho, personagem tema de muitas de nossas conversas. Ele gostava de contar sobre os aprendizados com o Mestre - “Tobias, o seu Cláudio gosta demais dessa bezerra aqui. Eu falei pra ele que eu gosto mais da irmã dela... Por que será que o seu Cláudio gostou mais dessa?” – e assim a gente ia aprendendo a “calibrar” os olhos de acordo com a baliza de seu Cláudio.
Na próxima exposição de Uberaba, quando os tratadores se reunirem para o julgamento, muitos irão falar do Flavinho, lembrar dele e rir das “coisas dele”. Na próxima ExpoGenética, quando animais superiores forem comentados pelos técnicos e geneticistas, o sorriso do Flavinho vai estar ali, apontando “um garrote bom, uma bezerra extraordinária” ou uma vaca “barriga de ouro”.
Flávio José da Silva morreu num acidente de carro no dia 12 de novembro de 2008, na BR 050, aos 28 anos de idade. Flavinho está agora na Fazenda do Céu, apartando entre as nuvens “um garrote bom” ou “uma novilha extraordinária”, talvez um filho do Átma e uma filha do Paysandu.

Uberaba, 13 de novembro de 2008.

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

Obama e o vassourão

Primeira página publicada no site Comunique-se.


O professor Darcy Ribeiro no artigo Sobre o óbvio afirma que "a elite brasileira é de uma sabedoria atroz", mas tudo leva a crer que esse traço não é privilégio apenas da elite tupiniquim.
Com a crise financeira mundial ainda nas primeiras contrações, a vitória de Obama parece coisa "de caso pensado", ou seja, o Bush Júnior sujou a água, a coisa vai ficar mais feia ainda, então, parece que a elite branca, protestante e conservadora aprontou mais uma das suas -"Bota o negão lá pra fazer a faxina". Se tudo correr bem, Obama vai passar o seu mandato usando um vassourão.///

quarta-feira, 22 de outubro de 2008

CAPOTE, UM ENSAIO SOBRE O MÉTODO DE TRABALHO DE CAMPO


Uberaba, outubro de 2008

Um recorte na vida de Trumam Capote produzido por Hollywood retrata a saga de um repórter; não só em busca de uma grande notícia para o jornal, mas o privilégio de estar diante de uma grande história e a possibilidade de poder experimentar um novo formato narrativo. Em A sangue frio, Capote funde jornalismo e literatura, mesclando também práticas de pesquisa empregadas nas duas modalidades. Na fase de levantamento de dados não existe o rigor da investigação jornalística, apesar de Capote contar com uma assistente considerada experiente e competente na apuração de dados. O autor auto-declara senhor de memória privilegiada, aptidão que implica em larga vantagem para o exercício do jornalismo e favorece potencialmente a observação participante. Talvez seja essa memória privilegiada de Capote o elemento chave para o enriquecimento da narrativa, principalmente no que diz respeito a descrição de cenários, situações, expressões e diálogos com os entrevistados.
No que diz respeito aos “métodos” utilizados por Truman para conseguir informações, há de se respeitar o momento histórico vivido por ele, quando o jornalismo estava em ascendência e as regras de comportamento do jornalista ainda estavam em construção. Se o autor subornou, seduziu ou envolveu seu principal entrevistado, a partir da premissa do momento histórico, não existe culpabilidade, entendo que a corrupção aconteceu com dinheiro da empresa jornalística em que ele trabalhava ou ainda, que essa prática poderia ser recorrente na época.
Capote e seu A sangue frio é, sem dúvida, um marco para o jornalismo norte americano pela inovação no estilo, porém é mais que isso, é a busca constante de um profissional da escrita na tentativa de contar uma história, uma história que mostra os conflitos sociais de um país que sempre se esforçou em mostrar-se para o mundo como uma sociedade estável, próspera, equilibrada e cheia de oportunidades para todos os seus cidadãos. Capote envolve-se de corpo e alma em duas construções em um mesmo projeto – ao mesmo tempo em que levanta e apura os dados, busca um estilo inovador – engenharia e arquitetura da narrativa sendo construídas ao mesmo tempo. Procurar demérito no trabalho de Capote é perda de tempo. Ele perseguiu a notícia, foi atrás da história com compulsiva determinação e tornou a história pública, enriquecida com minúcias de detalhes e impressões.
Caso as afetações do autor, seu ego imperativo e seu grande poder de persuasão tornaram-se elementos de conflito em sua mente, caso ele tenha percebido que causou algum mal com sua maneira de ser e de agir, pagou em vida com uma mente atormentada, destruída pela depressão e anestesiada pelo álcool.
Capote fez do jornalismo sua passarela; e da literatura, sua apoteose. Hoje, muito se fala do poder de persuasão do jornalista, não é a persuasão uma forma de sedução? Hoje, os meios para se conseguir uma informação estão em caminhos não muito iluminados à luz da ética, ou seja, Capote cometeu seus pecados, quem vai atirar a primeira pedra?///

sábado, 20 de setembro de 2008

ELEIÇÕES 2008 - O PERFIL DOS VENCEDORES

No dia 5 de outubro de 2008 os brasileiros vão às urnas votar para prefeito, vice-prefeito e vereadores, com segundo turno para os municípios com mais de 200 mil eleitores.
Com a evolução da prática de eleições livres e diretas e com a série de fatos envolvendo a classe política, divulgados amplamente pela imprensa, o eleitor certamente está mais exigente. Como prova a reeleição do Presidente Luis Inácio, concretizada por ampla margem de votos, mesmo com toda a grande imprensa trabalhando declaradamente contra a reeleição e contra a candidatura dele.
O eleitor mais esclarecido já não aceita os tradicionais perfis que levaram políticos dos diversos partidos a alcançarem um mandato na estrutura do poder municipal e, em alguns casos, se perpetuarem nele até o limite permitido pela legislação.
Com a aplicação dos projetos sociais do Governo Federal, as classes D e E adquiriram a percepção de que, quando existe vontade por parte do governo, os projetos voltados para os menos favorecidos economicamente são executados, chegam ao destino final, e a vida de centenas de milhares de famílias ganha novo ânimo.
Neste 2008, o eleitor vai se comportar de forma muito parecida a um consumidor pelos corredores de um supermercado, avaliando os produtos pela sua qualidade e não só pelo preço. O produto pode estar revestido de uma embalagem “bonitinha”, mas se não for eficiente e não vier ao encontro às necessidades, fica na prateleira. E muitos políticos já provaram largamente a sua ineficiência quando o assunto é melhorar a vida da população.
Para ganhar a confiança do cidadão, o candidato ideal terá de vir acompanhado de alguns atributos, sendo a maioria deles de ordem natural. Ao contrário dos cereais, candidato-transgênico está fora de moda. Ou seja, aquele político que ganha ingredientes do marketing político e se fantasia durante a campanha fazendo papel de “bonzinho”, “honesto” e “sério”, está ultrapassado. Afeto, honestidade e seriedade não são “qualidades” e sim, atributos naturais, senão obrigatórios para qualquer ser humano. As Eleições 2008 serão as eleições dos candidatos-naturais, aqueles que têm representatividade real e concreta.
Para se dar bem no dia cinco de outubro, o futuro prefeito ou vereador vai ter que ter a sua base eleitoral, mostrar compromisso com os moradores e não ter um perfil de político profissional. Acabou o tempo em que o eleitor acreditava em chefe, em líder, e o político era visto como alguém superior aos demais membros da população. Isso é passado. Nem cooperativas e entidades de classe aceitam mais “coronéis” nos dias de hoje.
Com a Internet, com o advento e multiplicação dos blogs, muitas informações que não saem na grande imprensa são publicadas e divulgadas abertamente. Por isso, a transparência vai ser um dos atributos avaliados pelo eleitor. Candidatos com esqueletos no armário, ou seja, com maracutaias escondidas ou camufladas em seu histórico, cairão logo no desgosto popular. E lá está a Internet para mostrar muitos dos escorregões de personalidades desse conturbado cenário político. É a Internet também a responsável pela nova forma de enxergar a política, pois muitos internautas já não aceitam a idéia de serem representados por um sujeito engravatado (isso num país de clima predominantemente tropical) que só aparece a cada quatro anos, distribuindo sorrisos, dentaduras, óculos, jogos de camisa, bolas e outras futilidades na tentativa de conquistar o gosto dos eleitores.
Hoje, o cidadão brasileiro tem à sua disposição informação de qualidade, que vem acompanhada de análise e reflexões feitas por especialistas. Portanto, este cidadão não acha justo manter um representante em Brasília ao custo de milhares de Reais por mês, ou a sustentação de prefeitos e vereadores que recebem salários bem acima da média paga nas cidades. Candidato com idéia de “se arrumar” a partir de mandato político está tão fora de moda que nem vai para o brechó. Isto é, nem em eleição para síndico de condomínio está conseguindo vencer.
As eleições 2008 serão marcadas como o ponto alto do MCV- Movimento de Combate a Velhacaria. Segundo um dicionário, a palavra velhacaria vem da qualidade de velhaco e significa: “Homem que vive de procedimentos enganadores, traiçoeiro, patife, tratante.” Gente com o perfil de velhaco como candidato a prefeito ou vereador não se encaixa nos anseios atuais do eleitor brasileiro e nem às necessidades do País.
Como em toda sociedade, os grandes grupos econômicos também vão escolher o candidato que vai receber os seus apoios – aquele dinheiro para financiar a campanha política. Mas como também já ficou claro nas eleições anteriores, o dinheiro já não compra tudo, principalmente, a dignidade dos brasileiros. Então, aquele velho hábito de compra de votos se transformou em atitude deselegante e tão inconveniente quanto fumar dentro de ônibus.
E por falar em elegância, o grande evento de moda, São Paulo Fashion Week, considerado durante muitos anos como um templo da futilidade, adaptou-se à nova era e também se engajou. Na edição 2008 abraçou a causa da proteção ambiental e fez críticas à poluição. Tudo sob a luz dos holofotes das passarelas e da imprensa internacional.
Quem quiser conquistar a simpatia dos eleitores nestas eleições vai ter que entender a força da palavra COMPROMETIMENTO e honrar e manter os compromissos com a comunidade. E para ter compromisso é necessário ao candidato vencedor ter LAÇOS com o bairro, com a vila e com o distrito. Candidato-turista não vai ter vez e ninguém mais dá ouvidos para esse tipo.
Outro perfil desgastado é aquele que aparece em homenagens e colunas sociais. Aquele tipo que está em todas as festas e eventos da cidade, sempre sendo entrevistado por emissoras de TV, rádio e sai em todos os jornais. É o candidato-deus, aquele que parece estar em todos os lugares ao mesmo tempo. O cidadão comum respeita muito as divindades e sabe diferenciar um Santo de gente de carne e osso.
Tudo leva a crer que o candidato-natural vai ser o modelo vencedor nas Eleições 2008, pois ele traz no seu perfil o conhecimento da realidade: anda de ônibus pela cidade, recebe um salário que não satisfaz às suas necessidades e de sua família, sabe quanto custa e o quanto é difícil pagar a mensalidade da faculdade, conhece o preço da cesta-básica, sabe o número de horas que se passa nos bancos e corredores dos hospitais públicos à espera de atendimento, sabe muito bem que não adianta fazer B.O. quando acontece roubo, entende a importância de dar atenção a um vizinho apenas com palavras em um momento difícil ou mesmo em caso de acidente grave. Enfim, o candidato-natural é aquele que mora na mesma rua que o eleitor, enfrenta os mesmos problemas todos os dias e também já não agüenta mais ver gente antiquada, egoísta, velhaca, sem compromisso e comprometimento na função de seu “representante”, seja na prefeitura ou na câmera de vereadores.
Naturalmente, como vivemos numa sociedade de consumo, a indústria do marketing vai lançar uma série de “produtos” para as Eleições 2008. Mas o eleitor sabe o impacto que determinadas “mercadorias” causam ao aquecimento global, à paz e harmonia, à dignidade e à saúde e ao bolso de cada um.
Alerta: o candidato-natural não tem contra-indicações e é totalmente compatível com justiça, transparência, vergonha na cara e dignidade.
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